Momento final da Idade Média na Península Ibérica, onde a cultura apresenta a religiosidade como elemento marcante. A cultura era monopolizada pelo clero católico,
detentor máximo de poder político e econômico. A vida do homem medieval era totalmente norteada pelos valores religiosos e para salvaçao da alma. O maior temor
humano era a idéia do inferno que torna o ser medieval submisso à Igreja e seus
representantes. São comuns procissões, romarias,
construção de templos religiosos, missas etc. A arte reflete, então, esse
sentimento religioso em que tudo gira em torno de Deus. Por isso, essa época é
chamada de Teocêntrica.
As relações sociais estão
baseadas também na submissão aos senhores feudais. Estes eram os detentores da
posse da terra, habitavam castelos e exerciam o poder absoluto sobre seus
servos ou vassalos. Há bastante distanciamento entre as classes sociais,
marcando bem a superioridade de uma sobre a outra.
Embora Portugal tivesse conhecido
manifestações literárias na prosa e no teatro, foi a poesia que alcançou grande
popularidade. Os poemas eram sempre cantados e acompanhados de instrumentos
musicais e de dança, por isso ganharam o nome de cantigas. Os autores dessas
cantigas eram os trovadores. Esses poetas geralmente eram da nobreza ou do
clero, e entre as pessoas comuns do povo quem cantava eram os jograis
2.1 Marco
inicial
O marco inicial do Trovadorismo é a “Cantiga
da Ribeirinha” conhecida também como “Cantiga da Garvaia”, a cantiga mais
antiga de que se tem registro, que foi escrita por Paio Soares de Taveirós no
ano de 1189 ou 1198. Esta fase da literatura portuguesa vai ate o ano de 1418,
quando começa o Quinhentismo.
2.2 Trovadores
Na lírica
medieval, os trovadores eram os artistas de origem nobre, que compunham e
cantavam, com o acompanhamento de instrumentos musicais, as cantigas. Essas
cantigas eram manuscritas e reunidas em livros, conhecidos como Cancioneiros. Temos
conhecimento de apenas três Cancioneiros: “Cancioneiro da Biblioteca”, “
Cancioneiro da ajuda” e “Cancioneiro da
Vaticana”.
Os
trovadores mais conhecidos foram: Afonso Sanches, Aires Nunes, Dom Dinis, Dom
Duarte, Frei João Álvares, Gomes Eanes de Zurara, João Garcia de Guilhade, João
Soares de Paiva, João Zorro, Meendinho, Nuno Fernandes Torneol, Paio Soares de Taveirós.
Aqui estão citados apenas alguns:
Dom Afonso X:
Dom Afonso X, o Sábio, foi rei de Leão Castela. É considerado o grande
renovador da cultura peninsular na segunda metade do século XIII. Acolheu na
sua corte e trovadores, tendo ele próprio escrito um grande numero de
composições em galego-português que ficaram conhecidas como Cantigas de Santa
Maria. Promoveu, alem da poesia, a historiografia, a astronomia e o direito,
tendo elaborado a General Historia, a Crônica de Espana, Libro de los Juegos,
Las Siete Partidas, Fuero Real, Libros Del Saber de Astronomia, entre outras.
Dom Dinis:
Dom
Dinis, o Trovador, foi
o sexto rei de Portugal, era filho de D. Afonso III e de Beatriz de Castela. Foi um rei importante para
Portugal, sua lírica foi de 139 cantigas, a maioria de amor, apresentando alto
mínimo técnico e lirismo, tendo renovado a cultura numa época em que ela estava
em decadência em terras ibéricas. Ele além de ter
dado inicio às cantigas de Amigo e Amor, ele desenvolveu também a poesia
trovadoresca. Assinou seus documentos com o nome completo, lembrando que ele
foi o primeiro rei a fazer isso, onde tudo indica que ele foi o primeiro rei
português não analfabeto.
Dom Duarte:
Dom Duarte foi o décimo primeiro rei de Portugal e o segundo da segunda
dinastia. Dom Duarte foi um rei dado as letras, tendo feito a tradução de
autores latinos e italianos e organizado uma importante biblioteca particular.
Ele próprio em suas obras mostra conhecimento dos autores latinos. Suas obras
são o Livro dos Conselhos, Leal Conselheiro, Livro da Ensinança de Bem Cavalgar
Toda a Sela.
Frei João Álvares:
Frei João Álvares a pedido do Infante Dom
Henrique, escreveu a Crônica do Infante Santo Dom Fernando. Nomeado abade do
mosteiro de Paço de Souza, dedicou-se a tradução de algumas obras pias: Regra
de São Bento, os Sermões aos Irmãos do Ermo atribuídos a Santo Agostinho e o
livro I da Imitação de Cristo.
Gomes Eanes de Zurara:
Gomes Eanes de Zurara, filho de João Enanes de
Zurara. Teve a seu cargo a guarda da livraria real, obtendo em 1454 o cargo de
“cronista-mor” da Torre do Tombo, sucedendo assim a Fernão Lopes. Das crônicas
que escreveu destacam-se: Crônica da Tomada Ceuta, Crônica do Conde Dom Pedro
de Meneses, Crônica do Conde Dom Duarte de Meneses e Crônica do Descobrimento e
Conquista de Guine.
Paio Soares Taveirós: Paio
Soares Taveiroos (ou Taveirós) era um trovador da primeira metade do século
XIII. De origem nobre, é o autor da Cantiga de amor A Ribeirinha, considerada a
primeira obra da língua galego-portuguesa.
2.3Cantigas
No
trovadorismo galego-português, as cantigas são divididas em: Satíricas que são
as cantigas de maldizer e de escárnio e Líricas que são as cantigas de amor e
de amigo.
Cantigas Satíricas:
Cantigas de Escárnio:
Nessa
cantiga, o eu – lírico, faz uma crítica (sátira) indireta e com duplos sentidos
a alguém. Para os trovadores fazerem uma cantiga de escárnio, ele precisa
compor uma cantiga falando mal de alguém, ou seja, fazendo uma critica a alguma
pessoa, através de palavras de duplo sentido, ou seja, através de
ambigüidades, trocadilhos e jogos semânticos, através de um processo denominado
pelos trovadores equívoco. Essa cantiga é capaz de estimular a imaginação
do autor, sugerindo-lhe uma nova expressão irônica. Abaixo, temos como
exemplo a cantiga de Pero da Ponte:
Está João Fernandes o mundo alterado
e modos já vejo dele se extinguir.
Vemos contra Roma levantar-se irado
O Imperador e os Tártaros vir.
E até recompensas se atreve a pedir
ai, João Fernandes! O mouro cruzado
O que vejo agora, já profetizado
foi por dez e cinco, os sinais do fim.
Anda neste mundo tudo misturado:
faz-se peregrino o mouro ruim.
Ai, João Fernandes! fiai-vos em mim
que sei discorrer como homem letrado.
Vede: se não fora o Anticristo nado
a ordem do mundo não se alteraria;
não se fiaria o amo no criado
nem este a seu amo se confiaria;
e a Jerusalém mouro não iria,
ai, João Fernandes! sem ser batizado.
e modos já vejo dele se extinguir.
Vemos contra Roma levantar-se irado
O Imperador e os Tártaros vir.
E até recompensas se atreve a pedir
ai, João Fernandes! O mouro cruzado
O que vejo agora, já profetizado
foi por dez e cinco, os sinais do fim.
Anda neste mundo tudo misturado:
faz-se peregrino o mouro ruim.
Ai, João Fernandes! fiai-vos em mim
que sei discorrer como homem letrado.
Vede: se não fora o Anticristo nado
a ordem do mundo não se alteraria;
não se fiaria o amo no criado
nem este a seu amo se confiaria;
e a Jerusalém mouro não iria,
ai, João Fernandes! sem ser batizado.
(Pero da Ponte. Cantares
dos trovadores galego-portugueses. Organização
e adaptação da linguagem por Natália Correia. Lisboa: Estampa, 1998. p. 156-7.)
Cantigas de Maldizer:
Esse tipo de cantiga, também traz
criticas, ou seja, sátiras diretas, porém não são acompanhadas de duplos
sentidos. É normal que ocorra agressões verbais à pessoa que está sendo
criticada ou satirizada, geralmente usam-se até mesmo palavrões para compor esse
tipo de cantiga, onde se revela ou não o nome da pessoa que está sendo agredida
verbalmente. Observe a seguir outra cantiga de Pero
da Ponte
Garcia López de Alfaro,
sabei o que me aborrece:
o que dais sai mui caro
mas barato nos parece. O que dais sai muito caro a quem o tiver de obter
mas é barato o que dais se alguém o quiser vender. Caros nos saem os panos
que pedir-vos ninguém ousa
mas por que os trazeis dois anos, barata parece à coisa. O que dais sai muito caro a quem o tiver de obter
mas é barato o que dais se alguém o quiser vender. Com espanto se me depara
numa só coisa o exemplo
dela sair muito cara
e barata ao mesmo tempo. O que dais sai muito caro a quem o tiver de obter
mas é barato o que dais se alguém o quiser vender.
o que dais sai mui caro
mas barato nos parece. O que dais sai muito caro a quem o tiver de obter
mas é barato o que dais se alguém o quiser vender. Caros nos saem os panos
que pedir-vos ninguém ousa
mas por que os trazeis dois anos, barata parece à coisa. O que dais sai muito caro a quem o tiver de obter
mas é barato o que dais se alguém o quiser vender. Com espanto se me depara
numa só coisa o exemplo
dela sair muito cara
e barata ao mesmo tempo. O que dais sai muito caro a quem o tiver de obter
mas é barato o que dais se alguém o quiser vender.
(Pero da Ponte. In: Cantares
dos trovadores galego-portugueses. Organização
e adaptação da linguagem por Natália Correia. ed. Lisboa: Estampa, 1998. p.
86-7.)
Outras modalidades satíricas:
As cantigas satíricas distinguem de várias formas, ou modalidade de
cantigas.
As cantigas de joguete arteio e risabelha:
São pequenas composições que
fazem rir somente no momento, ou seja, causa um riso imediato, e que não têm nenhuma
crítica às pessoas e nem à sociedade.
As cantigas de seguir:
São construídas a partir de outra cantiga, ou seja, o tema da cantiga
foi reaproveitado, os versos, as rimas e as músicas.
O sirventês:
Muito diferente de uma sátira personalizada, era composto por um servo
em honra a o seu senhor, ou seja, escreveu sobre os inimigos de seu senhor
O desacordo:
Se diferencia
pela irregularidade do esquema métrico.
As tensões:
Era como se fosse um desafio onde os trovadores e os jograis tinham que
calcular suas habilidades poéticas.
Cantigas Líricas:
Cantigas de Amor:
Nas cantigas de amor o homem se refere à sua amada como sendo uma figura
idealizada, distante. O poeta fica na posição de fiel vassalo, fica as ordens
de sua senhora, dama da corte, onde esse amor é considerado como um objeto de
sonho, ou seja, impossível, que está longe. Esta cantiga teve origem no sul da
França, apresentando um eu – lírico é masculino e também sofredor. Nas cantigas
de amor o poeta chama sua amada de senhor, pois naquela época, todas as
palavras que terminavam com “or”, em galego-português não tinham feminino,
portanto ele dizia “minha senhor”, ele cantava a dor de amar, onde está sempre
acometido da “coita”. A palavra “coita” é muito usada nessas cantigas, ela
significa sofrimento por amor.
Quantos o amor faz
padecer penas que tenho padecido vivendo assim eu quero estare esperar, e esperar! vivendo assim eu quero estar e esperar, e esperar!
Esses que veem tristementedesamparada sua paixão
(João Garcia de Guilhade. Cantares
dos trovadores galego-portugueses. Organização
e adaptação da linguagem por Natália Correia. Lisboa: Estampa, 1998. p. 112-3.)
Cantigas de amigo:
Essa cantiga tem sua origem popular, são marcadas pela literatura
oral, ou seja, paralelismo, refrão, reiterações e estribilho, onde isso são
recursos próprios do texto que servem para serem cantados e que propiciam
facilitação de memorização. Nas cantigas populares, ainda são usados esses
recursos.
Essa cantiga teve origem na Península Ibérica, ela apresenta um
eu-lírico feminino, porem com um autor masculino, ele canta seu amor pelo seu
amigo, em um ambiente mais natural, em grande parte, faz um
diálogo com suas amigas ou com a sua mãe. Na cantiga de amigo, a figura
feminina é de uma jovem que começa a amar, lembrando às vezes da ausência do
amado, ou cantando a sua alegria por um encontro com ele. Essa cantiga pode
mostrar também a tristeza da mulher, pelo fato do seu amado ter ido para a
guerra. Essa cantiga é de amigo, e mostra que a mulher espera ansiosamente
pelo amigo, visa bastante às ondas do mar de Vigo e sobre o regresso de seu
amado.
Não sei eu, amigo,
de quem padecessemágoas que padeço, e que não morresse,
Não sei eu amigo, de quem tal sentisse,
e que assim sentindo, o sol encobrisse,
senão eu, coitada, a quem deus maldisse,
já que não vos vejo, como merecia;
Ah, quisesse Deus, que eu nunca vos visse,
amigo que vi, em tão triste dia.
Não sei eu amigo, de quem tal sentisse,
e que assim sentindo, o sol encobrisse,
senão eu, coitada, a quem deus maldisse,
já que não vos vejo, como merecia;
Ah, quisesse Deus, que eu nunca vos visse,
amigo que vi, em tão triste dia.
(Dom Dinis,Cantares dos
trovadores galego-portugueses.
Organização e adaptação da linguagem por Natália Correia. ed. Lisboa: Estampa,
1998. p. 232-3.)
Referencias:
SUA PESQUISA. Disponível em:
PORTUGUES LINGUAGENS. Editora Saraiva. Disponível
em:
ENTENDENDO O TROVADORISMO. Disponível em: http://vhrjgtrova.blogspot.com.br/2009/11/principais-autores-trovadores.html
COLEGIO WEB. Trovadorismo. Disponível em: http://www.colegioweb.com.br/colegio/literatura/trovadorismo

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