quarta-feira, 19 de junho de 2013

TROVADORISMO



                                                                      

Momento final da Idade Média na Península Ibérica, onde a cultura apresenta a religiosidade como elemento marcante.  A cultura era monopolizada pelo clero católico, detentor máximo de poder político e econômico. A vida do homem medieval era totalmente norteada pelos valores religiosos e para salvaçao da alma. O maior temor humano era a idéia do inferno que torna o ser medieval submisso à Igreja e seus representantes.  São comuns procissões, romarias, construção de templos religiosos, missas etc. A arte reflete, então, esse sentimento religioso em que tudo gira em torno de Deus. Por isso, essa época é chamada de Teocêntrica.
   As relações sociais estão baseadas também na submissão aos senhores feudais. Estes eram os detentores da posse da terra, habitavam castelos e exerciam o poder absoluto sobre seus servos ou vassalos. Há bastante distanciamento entre as classes sociais, marcando bem a superioridade de uma sobre a outra.     
   Embora Portugal tivesse conhecido manifestações literárias na prosa e no teatro, foi a poesia que alcançou grande popularidade. Os poemas eram sempre cantados e acompanhados de instrumentos musicais e de dança, por isso ganharam o nome de cantigas. Os autores dessas cantigas eram os trovadores. Esses poetas geralmente eram da nobreza ou do clero, e entre as pessoas comuns do povo quem cantava eram os jograis                                                                                                                                                                                                                                                  
2.1 Marco inicial
  O marco inicial do Trovadorismo é a “Cantiga da Ribeirinha” conhecida também como “Cantiga da Garvaia”, a cantiga mais antiga de que se tem registro, que foi escrita por Paio Soares de Taveirós no ano de 1189 ou 1198. Esta fase da literatura portuguesa vai ate o ano de 1418, quando começa o Quinhentismo.

2.2 Trovadores
  Na lírica medieval, os trovadores eram os artistas de origem nobre, que compunham e cantavam, com o acompanhamento de instrumentos musicais, as cantigas. Essas cantigas eram manuscritas e reunidas em livros, conhecidos como Cancioneiros. Temos conhecimento de apenas três Cancioneiros: “Cancioneiro da Biblioteca”, “ Cancioneiro da ajuda” e  “Cancioneiro da Vaticana”.
  Os trovadores mais conhecidos foram: Afonso Sanches, Aires Nunes, Dom Dinis, Dom Duarte, Frei João Álvares, Gomes Eanes de Zurara, João Garcia de Guilhade, João Soares de Paiva, João Zorro, Meendinho, Nuno Fernandes Torneol, Paio Soares de Taveirós. Aqui estão citados apenas alguns:
Dom Afonso X:                                                                                                                        Dom Afonso X, o Sábio, foi rei de Leão Castela. É considerado o grande renovador da cultura peninsular na segunda metade do século XIII. Acolheu na sua corte e trovadores, tendo ele próprio escrito um grande numero de composições em galego-português que ficaram conhecidas como Cantigas de Santa Maria. Promoveu, alem da poesia, a historiografia, a astronomia e o direito, tendo elaborado a General Historia, a Crônica de Espana, Libro de los Juegos, Las Siete Partidas, Fuero Real, Libros Del Saber de Astronomia, entre outras.


Dom Dinis:                                                                                                                                      Dom Dinis, o Trovador, foi o sexto rei de Portugal, era filho de D. Afonso III e de Beatriz de Castela. Foi um rei importante para Portugal, sua lírica foi de 139 cantigas, a maioria de amor, apresentando alto mínimo técnico e lirismo, tendo renovado a cultura numa época em que ela estava em decadência em terras ibéricas. Ele além de ter dado inicio às cantigas de Amigo e Amor, ele desenvolveu também a poesia trovadoresca. Assinou seus documentos com o nome completo, lembrando que ele foi o primeiro rei a fazer isso, onde tudo indica que ele foi o primeiro rei português não analfabeto. 
Dom Duarte:                                                                                                                           Dom Duarte foi o décimo primeiro rei de Portugal e o segundo da segunda dinastia. Dom Duarte foi um rei dado as letras, tendo feito a tradução de autores latinos e italianos e organizado uma importante biblioteca particular. Ele próprio em suas obras mostra conhecimento dos autores latinos. Suas obras são o Livro dos Conselhos, Leal Conselheiro, Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela.
Frei João Álvares:
Frei João Álvares a pedido do Infante Dom Henrique, escreveu a Crônica do Infante Santo Dom Fernando. Nomeado abade do mosteiro de Paço de Souza, dedicou-se a tradução de algumas obras pias: Regra de São Bento, os Sermões aos Irmãos do Ermo atribuídos a Santo Agostinho e o livro I da Imitação de Cristo.

Gomes Eanes de Zurara:
Gomes Eanes de Zurara, filho de João Enanes de Zurara. Teve a seu cargo a guarda da livraria real, obtendo em 1454 o cargo de “cronista-mor” da Torre do Tombo, sucedendo assim a Fernão Lopes. Das crônicas que escreveu destacam-se: Crônica da Tomada Ceuta, Crônica do Conde Dom Pedro de Meneses, Crônica do Conde Dom Duarte de Meneses e Crônica do Descobrimento e Conquista de Guine.
Paio Soares Taveirós:                                                                                                                  Paio Soares Taveiroos (ou Taveirós) era um trovador da primeira metade do século XIII. De origem nobre, é o autor da Cantiga de amor A Ribeirinha, considerada a primeira obra da língua galego-portuguesa.

2.3Cantigas
No trovadorismo galego-português, as cantigas são divididas em: Satíricas que são as cantigas de maldizer e de escárnio e Líricas que são as cantigas de amor e de amigo.
Cantigas Satíricas:
Cantigas de Escárnio:                                                                                                                       Nessa cantiga, o eu – lírico, faz uma crítica (sátira) indireta e com duplos sentidos a alguém. Para os trovadores fazerem uma cantiga de escárnio, ele precisa compor uma cantiga falando mal de alguém, ou seja, fazendo uma critica a alguma pessoa, através de palavras de duplo sentido, ou seja, através de ambigüidades, trocadilhos e jogos semânticos, através de um processo denominado pelos trovadores equívoco. Essa cantiga é capaz de estimular a imaginação do autor, sugerindo-lhe uma nova expressão irônica. Abaixo, temos como exemplo a cantiga de Pero da Ponte:                                                                                                                                                              
Está João Fernandes o mundo alterado
e modos já vejo dele se extinguir.
Vemos contra Roma levantar-se irado
O Imperador e os Tártaros vir.
E até recompensas se atreve a pedir
ai, João Fernandes! O mouro cruzado
O que vejo agora, já profetizado
foi por dez e cinco, os sinais do fim.
Anda neste mundo tudo misturado:
faz-se peregrino o mouro ruim.
Ai, João Fernandes! fiai-vos em mim
que sei discorrer como homem letrado.
Vede: se não fora o Anticristo nado
a ordem do mundo não se alteraria;
não se fiaria o amo no criado
nem este a seu amo se confiaria;
e a Jerusalém mouro não iria,
ai, João Fernandes! sem ser batizado.

(Pero da Ponte. Cantares dos trovadores galego-portugueses. Organização e adaptação da linguagem por Natália Correia. Lisboa: Estampa, 1998. p. 156-7.)
Cantigas de Maldizer:                                                                                                                                        Esse tipo de cantiga, também traz criticas, ou seja, sátiras diretas, porém não são acompanhadas de duplos sentidos. É normal que ocorra agressões verbais à pessoa que está sendo criticada ou satirizada, geralmente usam-se até mesmo palavrões para compor esse tipo de cantiga, onde se revela ou não o nome da pessoa que está sendo agredida verbalmente. Observe a seguir outra cantiga de Pero da Ponte
 Garcia López de Alfaro,                                                                                                                                         sabei o que me aborrece: 
 o que dais sai mui caro 
 mas barato nos parece. 
                                                                                                                            O que dais sai muito caro a quem o tiver de obter 
 mas é barato o que dais se alguém o quiser vender.                                                                     Caros nos saem os panos 
 que pedir-vos ninguém ousa
 mas por que os trazeis dois anos,                                                                                                                         barata parece à coisa.                                                                                                                       O que dais sai muito caro a quem o tiver de obter 
mas é barato o que dais se alguém o quiser vender.                                                                    Com espanto se me depara
 numa só coisa o exemplo
dela sair muito cara
e barata ao mesmo tempo.
                                                                                                                                              O que dais sai muito caro a quem o tiver de obter 
mas é barato o que dais se alguém o quiser vender.
                                                                                 
(Pero da Ponte. In: Cantares dos trovadores galego-portugueses. Organização e adaptação da linguagem por Natália Correia. ed. Lisboa: Estampa, 1998. p. 86-7.)
Outras modalidades satíricas:                                                                                                         As cantigas satíricas distinguem de várias formas, ou modalidade de cantigas. 
As cantigas de joguete arteio e risabelha:                                                                                             São pequenas composições que fazem rir somente no momento, ou seja, causa um riso imediato, e que não têm nenhuma crítica às pessoas e nem à sociedade.
As cantigas de seguir:                                                                                                                   São construídas a partir de outra cantiga, ou seja, o tema da cantiga foi reaproveitado, os versos, as rimas e as músicas.
O sirventês:                                                                                                                                Muito diferente de uma sátira personalizada, era composto por um servo em honra a o seu senhor, ou seja, escreveu sobre os inimigos de seu senhor
O desacordo:                                                                                                                                  Se diferencia pela irregularidade do esquema métrico.
As tensões:                                                                                                                                     Era como se fosse um desafio onde os trovadores e os jograis tinham que calcular suas habilidades poéticas.
Cantigas Líricas:
Cantigas de Amor:                                                                                                                                        Nas cantigas de amor o homem se refere à sua amada como sendo uma figura idealizada, distante. O poeta fica na posição de fiel vassalo, fica as ordens de sua senhora, dama da corte, onde esse amor é considerado como um objeto de sonho, ou seja, impossível, que está longe. Esta cantiga teve origem no sul da França, apresentando um eu – lírico é masculino e também sofredor. Nas cantigas de amor o poeta chama sua amada de senhor, pois naquela época, todas as palavras que terminavam com “or”, em galego-português não tinham feminino, portanto ele dizia “minha senhor”, ele cantava a dor de amar, onde está sempre acometido da “coita”. A palavra “coita” é muito usada nessas cantigas, ela significa sofrimento por amor.
Quantos o amor faz padecer penas que tenho padecido vivendo assim eu quero estare esperar, e esperar!                                                                                                                             vivendo assim eu quero estar e esperar, e esperar!                                                                                                                                             Esses que veem tristementedesamparada sua paixão                                                                                                                      
(João Garcia de Guilhade. Cantares dos trovadores galego-portugueses. Organização e adaptação da linguagem por Natália Correia. Lisboa: Estampa, 1998. p. 112-3.)
Cantigas de amigo:                                                                                                                     Essa cantiga tem sua origem popular, são marcadas pela literatura oral, ou seja, paralelismo, refrão, reiterações e estribilho, onde isso são recursos próprios do texto que servem para serem cantados e que propiciam facilitação de memorização. Nas cantigas populares, ainda são usados esses recursos.                                                                                                                                        Essa cantiga teve origem na Península Ibérica, ela apresenta um eu-lírico feminino, porem com um autor masculino, ele canta seu amor pelo seu amigo, em um ambiente mais natural, em grande parte, faz um diálogo com suas amigas ou com a sua mãe. Na cantiga de amigo, a figura feminina é de uma jovem que começa a amar, lembrando às vezes da ausência do amado, ou cantando a sua alegria por um encontro com ele. Essa cantiga pode mostrar também a tristeza da mulher, pelo fato do seu amado ter ido para a guerra. Essa cantiga é de amigo, e mostra que a mulher espera ansiosamente pelo amigo, visa bastante às ondas do mar de Vigo e sobre o regresso de seu amado.

Não sei eu, amigo, de quem padecessemágoas que padeço, e que não morresse,
Não sei eu amigo, de quem tal sentisse,
e que assim sentindo, o sol encobrisse,
senão eu, coitada, a quem deus maldisse,
já que não vos vejo, como merecia;
Ah, quisesse Deus, que eu nunca vos visse, 
amigo que vi, em tão triste dia. 
                                                                                                                  
(Dom Dinis,Cantares dos trovadores galego-portugueses. Organização e adaptação da linguagem por Natália Correia. ed. Lisboa: Estampa, 1998. p. 232-3.)
Referencias:

SUA PESQUISA. Disponível em: 

PORTUGUES LINGUAGENS. Editora Saraiva. Disponível em:

COLEGIO WEB. Trovadorismo. Disponível em: http://www.colegioweb.com.br/colegio/literatura/trovadorismo

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